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Faixa Sonora

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

PELAS MÃOS E PELOS OLHOS EU JURO


são as mãos que me trazem o amor dos homens
e me largam na fronteira de todos os segredos
que repousaram em mim como no breve espaço
de uma lua fugaz
também as tuas mãos haviam de chegar um dia assim
ou pelo menos foi isso que eu pensei quando
o teu corpo tocou ao de leve a sombra das águas
que tinham corrido ao longo das noites da tua ausência
mas às vezes o destino escreve-se
com inesperados visitantes
e o nosso quarto ficou cheio de vozes mas
nenhuma nos reconhecia por dentro das suas
mais absurdas dissonâncias
e foi então que eu soube que a felicidade
era apenas um complemento
muito circunstancial e remoto de lugar onde
em que nenhum passado que nos pertencesse
faria qualquer sentido
apesar de tudo os meus dedos
ainda procuram reter o sôfrego sabor das horas que faltam
para o prometido regresso
das palavras tecidas de fresco entre a penumbra
das nossas pernas
mas houve sempre desígnios imutáveis
eclipses ravinas ou a ácida saliva das marés
ou simplesmente a ferida de quem vinha
em voz baixa reclamar o que lhe fora roubado
e os meus dedos acabavam por recuar
e as palavras com que em tempos
tinhas esperado por mim
cansaram-se
e são hoje nódoas rosadas no meu corpo
como se o meu corpo fosse um mapa
onde o teu corpo deslocou minúsculas bandeiras
em tempo de guerra

(Alice Vieira)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

FEITIÇARIA ATRAVÉS DE UM RETRATO


Fixo os meus olhos nos teus, e aí
            Lastimo minha imagem ardendo nos teus olhos.
A minha imagem afogada numa lágrima transparente
            Descubro, quando olho mais para baixo.
Tivesses tu a maldosa habilidade
de matar através de imagens feitas e desfeitas,
Por quantas formas não executarias a tua vontade!
Mas agora bebi as tuas doces lágrimas salgadas,
            E ainda que mais derrames, eu partirei:
Desaparecida a minha imagem, desaparece o medo,
            De que possa ser lesado por tal arte;
Embora retenhas de mim
Ainda uma imagem, seguramente essa estará,
Dentro do teu coração, livre de todo o mal.

]OHN DONNE (1572-1631)
Poemas Eróticos
(tradução de Helena Barbas)


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O ANJO ENCOBERTO


arrasta-me pela lama como se gostasses de mim
num tratamento de beleza que me estraga a pele mas que me doura como um Sol que existe só para nós dois
por sermos um que foi feito à nossa medida          
antes do molde partir para longe            
para um sítio onde o amor não existe porque desiste
e eu sinto-te com a delicadeza da borboleta que vai fazer o tufão
e dá-me um beijo agora porque próximo não há    
é que não me lembro dele por ser depois
e os beijos são da cor dos lábios para condizer com a cor da pele que levas por cima do corpo
e trago-te comigo como a fotografia tipo passe que eu mostro ao universo na paragem do autocarro
e a senhora com dores    
porque foi operada à vesícula     
lê-te    
vislumbra-te pela dificuldade do papel rectangular que te mostra a beleza
que a máquina não viu por ser instantânea    
mas ainda assim a senhora diz
é tão linda a sua namorada
e ela não sabe que tu morreste
e que antes de morrer não me querias
e eu não lhe conto
e digo-lhe mentiras
e falo dos passeios no parque que não demos
e milho aos pombos que não demos
e apalpões nas bochechas dos filhos dos outros que não demos
e não demos porque não demos
porque não quiseste
porque não deixaram

e tenho as saudades que é possível ter da pessoa imaginária que quase esteve
e tenho a sensação de que a queria tanto junto de mim como os que estiveram para não a conhecer
estiveram lá quase
e eu estive quase lá                  
mas ela não deixou
e ela não está
e ela não esteve
e ela não é
e ela não sou
e ela não estamos
e ela não consigo
e ela não deixa
e ela não
não percebe as palavras        
por ser um cadáver amado até ao infinito
até ao último grito

e eu sou o anjo encoberto
e vou explicar como é que se vive
vive-se assim
sem dor
sem alma
sem paz
sem som
sem luz
sem são
sem triste     
nem errado
nem verme
nem lustre
vive-se

e tu vais ser a recordação que guardo na cabeça
o tempo vai ser o nosso tempo
e a história feita pelos livros serve para embelezar o nosso amor que é eterno e que nunca existiu


João Negreiros
(Luto Lento)