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Faixa Sonora

domingo, 10 de março de 2013

A ROSA


Sabia de uma rosa que me ia pouco a pouco
estirando e afrouxando, corpo a corpo, até à alma.

A beleza não tem limites nem aroma
mas durante longos meses senti sua fragância.

Estivemos os dois a partilhar-nos, vida
que nos fundia e nos distanciava.

MARÍA VICTORIA ATENCIA (1931)
Antologia Poética
(tradução de José Bento)

terça-feira, 5 de março de 2013

A RAPARIGA DAS ROSAS


Tu, que trazes as rosas, é rosas o encanto que trazes.
O que é que vendes? a ti? às rosas, ou às rosas e a ti?

DIONÍSIO, O SOFISTA (SÉC. I A.C.)
«Antologia Palatina»
Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o futuro
(Tradução de Fernando Pessoa)

segunda-feira, 4 de março de 2013

A NOITE NA ILHA


Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora – pão,
vinho, amor e cólera – te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.

Pablo Neruda