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Faixa Sonora

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

TRECHO DA PRAIA




Como por um ralo atrás da pupila, vêem-se agir:

nada divide o caranguejo, dividindo

os lodos em seu sulco,

e também suas pinças se amotinam

à passagem, com sombra,

duma ave marinha…

 

E antes da chegada ascendente do mar,

ou que alguém module a voz

pela que da nuvem soou

no paraíso, amam-se na areia.

Enquanto do largo

o halo dum navio nocturno

se expande e irisa em seu redor.

 

SEBASTIÃO ALBA (1940)

A Noite Dividida

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

SOU UM LUGAR...




Sou um lugar carregado de cactos junto à água, lua,

os animais com um clarão na boca, sou

uma ciência a sangue. O sítio ainda agora no cérebro:

jarro de vidro cheio de leite, o sal. Estes

elementos arcaicos – e as mulheres

sombrias

cantando. Sou um lugar que transborda.

Espancaram a luz atrás das costas: de onde eu vinha,

criança branca do mundo. Defronte os fogos

lavravam-me a testa.

Podia dançar sobre as áscuas. Podia ser tão silvestre

entre as folhagens do ouro, ter cornos, negra

máscara aterradora, silvar

como uma cobra.

Eu entrava na morte, era o filho da estrela

bárbara – erguia-a do meio dos diamantes.

De equinócio a solstício abraçava-me uma onda

quando subia, quando

se despenhava eu dormia dentro como um olho de água.

Depois o rosto obscuro.

Depois a seda fiada atrás do rosto.

Não espero nada.

Espero o dom apenas de uma imagem.

 

HERBERTO HELDER (1930)

Poesia Toda

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

POEMA DE AMOR



Teu rosto, no meu rosto, descansado,

Meu corpo, no teu corpo, adormecido,

Bater de asas, tão longe, noutro tempo,

Sem relógio nem espaço proibido.

 

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,

Nos sorriem e nos dizem: Sossegai!

Românticos amantes, viajantes eternos,

Olham por nós na hora que se esvai!

 

Que música de prados e de fontes!

Que riso de águas vem para nos levar?

Meu rosto, no teu rosto de horizontes,

Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

 

NATÉRCIA FREIRE (1919)

Antologia Poética

 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

POEMA (Astecas)



Se me ponho a cantar,

como vermelha trepadeira se entrelaça o meu canto:

flor que cheira a milho torrado, onde se ergue a Árvore:

perfume de flor de cacau: dança junto ao tambor,

dança libertando o teu perfume.

Ergue-se além o sol:

num vaso de esmeralda coberto de quetzal,

cinge-o um colar de turquesas,

e as flores caem entre todas as cores.

 

Poemas Ameríndios

(poemas mudados para português por Herberto Helder)