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Faixa Sonora

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

AI, COMO TE QUERIA...




Ai, como eu te queria toda de violetas
E flébil de cetim…
Teus dedos, longos de marfim,
Que os sombreassem jóias pretas… 
E tão febril e delicada
Que não pudesses dar um passo -
¬Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de cor no regaço…

Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas ¬–
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas. ..

Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata -
¬Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata. . .
[…]
Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim ¬–
Os teus espasmos de seda…

- Água fria e clara numa noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim…

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890-1916)
Poemas Completos

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

MEMÓRIAS



A minha memória ainda está viva…
E o teu vulto também…
Fomos galhos de uma
mesma roseira…
de perfume sutil…
de matriz indelével…
Lembranças não se apagam…
Saudades não se adormecem…
Um grande amor nunca se esquece…
Como fera, nunca perco
o faro… e seu cheiro, meu bem,
continua sensível…
E quando o sinto,
minh’alma pede socorro,
e meu coração sufoca o grito…
É o cio do amor que
inalo, nessa hora…
É a doce vontade de ter-te
Novamente em meus braços,
que sozinho aspiro…
É me inútil, tentar substituí-la…

(João Assis)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

JÁ QUE SENTIR...


Já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;

por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor. Não chores
- o melhor movimento do meu cérebro
vale menos que o teu palpitar de pálpebras que diz

somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo

E a morte julgo nenhum parêntesis


E. E. CUMMINGS (1894-1962)
xix poemas

terça-feira, 4 de setembro de 2012

DESPRENDE-TE, CORAÇÃO...


Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos, folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.
 
Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.

Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens
voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.

De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.

E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho,
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.

INGEBORG BACHMANN (1926-1964)
O Tempo Aprazado
(Tradução de João Barrento)

domingo, 26 de agosto de 2012

NÃO DIZIA PALAVRAS....


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

MINHA MUSA


Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido.

Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre e redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade.
Aparição Divina da Saudade…
Ó Eva, toda em flor e deslumbrada!

Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877-1952)
Senhora da Noite

sábado, 11 de agosto de 2012

ESSE CHEGAR...

Esse chegar de repente e abraçá-la,
esse pôr-se a lutar ele com ela,
esse cruzar suas pernas com as dela,
aquele poder mais ele e derrubá-la;
 
aquele vir abaixo, e ele sobre ela,
e ela cobrir-se e ele destapá-la,
esse pegar na lança e espetá-la,
e esse teimar dele até metê-la;

esse jogo de lombos e cadeiras,
e as palavras tão meigas e amorosas
que um ao outro murmuram, apressados;

esse voltar e andar de mil maneiras,
e fazer neste transe outras mil coisas
nas legítimas perdem os casados.

Jardim de Poesias Eróticas do Siglo de Oro
(tradução de José Bento)