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Faixa Sonora

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A VIDA



É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento…
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo «Pedro Sem»,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!


A mais nobre ilusão morre… desfaz-se…
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida…


Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!


 

(Florbela Espanca)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A SOMBRA DO HOMEM



Quando, num sono aéreo, tudo dorme,

E a treva lembra luz adormecida…

E o silêncio, quimérico e disforme,

É só uma canção interrompida…

 

Quando um pinheiro, além, na indecisão

Da noite, que o perturba e lhe faz mal,

Se vê, perdido em vaga confusão,

Tornar-se um ermo e vago pinheiral;

 

Quando, na sombra espessa, ó minha fonte,

Desliza, anseio de água, a tua voz,

De som molhando o rosto do horizonte,

Que sofre e chora, às vezes, como nós…

 

Quando em paz tudo dorme, eu sonho e cismo.

Remorso? Exaltação? Delírio a arder?

E ouço vozes, que vêm dum fundo abismo,

Por minhas mãos aberto no meu ser!

 

E ouço vozes e passos… Quem me fala?

És tu, ó chuva? Ó vento? Ou serei eu?

Ah, como distinguir a minha fala

Das vozes que andam, tristes, pelo céu!

 

Já de tanto sentir a Natureza,

De tanto amar, com ela me confundo!

 

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877-1952)

As Sombras, À Ventura, Jesus e Pã

 

terça-feira, 29 de julho de 2014

A MULHER DESCONHECIDA



É muito bela esta mulher desconhecida

que me olha longamente

e repetidas vezes se interessa

pelo meu nome

 

eu não sei

mas nos curtos instantes de uma manhã

ela percorreu ásperas florestas

estações mais longas que as nossas

a imposição temível do que

desaparece

 

e se pergunta tantas vezes o meu nome

é porque no corpo que pensa

aquela luta arcaica, desmedida se cravou:

um esquecimento magnífico

repara a ferida irreparável

do doce amor

 

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (1965)

Baldios

 

domingo, 27 de julho de 2014

A GUERRILHEIRA




Eis a ocasião em forma de mulher

com a ponte do lábio galgando

a voz Seus cabelos ondulam

por dentro das estrofes

 

Na mesma noite dividida ao meio

como se um lado reflectisse o outro

a sombra que na folha me adelgaça os dedos

verte ainda alguns versos e pára

                                      Para quê

Pergunta a sucessão dos meus perfis iluminados

pelo volteio das luzes contrárias

E desatam-se das luzes os seus reflexos

a noite desdobra-se em metades imperfeitas.

 

SEBASTIÃO ALBA (1940)

A Noite Dividida

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A BELA DE YU


Flores de Primavera, lua de Outono, acabam quando?
De tudo o que é passado – que sei eu?
A outra noite, no meu pequeno pavilhão, outra vez o vento leste.
Ó país perdido, quando a lua brilha, dói olhar para trás.

Balcões esculpidos, escadas em mármore – hão-de permanecer.
Só os rostos, outrora radiantes, mudaram.
Reflecte – aí, quanto sofrimento.
É tão-só um rio no pleno fluxo da Primavera
E que corre para o mar, a leste.

LI YU (937-978)
Uma Antologia de Poesia Chinesa

(tradução de Gil de Carvalho)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

ALMA QUE...


Alma que da minh’alma se aproxima

E me desperta do meu sonho em meio

E nos prenda e nos cinja o doce enleio

Como a dois lírios prende e enlaça um vime.

E assim desta existência que me oprime

Pois que já n’ela achar o Bem não creio

Vamos subamos lado a lado ao seio

Infinito do Deus Calmo e Sublime!

 

ÂNGELO DE LIMA (1872-1921)

Poesias Completas

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

DESAFIO



Adoro-te         nem imaginas quanto

e tu respondes

não imagino?

eu sussurro algo ao teu ouvido e tu dizes

tanto?

admiro-te muito
tanto ou mais
não perguntes quanto
que surpresa ainda cais      da cadeira
mesmo que estejas de pé
eléctrica pela brilhante execução
quando acontecer quero-te como algoz
a ver se pelo menos antes do fim
nus deixam estar a sós
amo-te mais que a mim
não   que não me amo muito
amo-te mais que a ti  só por ser impossível
sabes             adoro desafios
queres cantar ao desafio?
queres?
mas espera       só vale canções de amor


João Negreiros
(O Cheiro da Sombra das Flores)