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Faixa Sonora

segunda-feira, 23 de março de 2015

EU TORNO-ME...




Eu torno-me cada vez mais dócil,

e tu sempre misterioso e novo,

mas teu amor, meu severo amigo,

é uma prova de ferro e fogo.

 

Proíbes-me de cantar, sorrir,

e há muito tempo de rezar,

desde que não me aparte de ti,

todo o resto me é igual!

 

Assim, alheia à terra e ao céu,

já não canto, apenas vivo.

Minha alma livre arrancaste

do inferno e do paraíso.

 

ANNA AKHMÁTOYA (1889-1966)

Só o Sangue Cheira a Sangue

(tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

HÁ DE HAVER UM LUGAR




Há de haver um lugar

em que a serenidade de amar

seja o olhar brilhante de esperança,

de pássaros a navegar no espaço,

no ar que dá a vida e beleza aos sonhos

 

(m.d.)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

TRECHO DA PRAIA




Como por um ralo atrás da pupila, vêem-se agir:

nada divide o caranguejo, dividindo

os lodos em seu sulco,

e também suas pinças se amotinam

à passagem, com sombra,

duma ave marinha…

 

E antes da chegada ascendente do mar,

ou que alguém module a voz

pela que da nuvem soou

no paraíso, amam-se na areia.

Enquanto do largo

o halo dum navio nocturno

se expande e irisa em seu redor.

 

SEBASTIÃO ALBA (1940)

A Noite Dividida

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

SOU UM LUGAR...




Sou um lugar carregado de cactos junto à água, lua,

os animais com um clarão na boca, sou

uma ciência a sangue. O sítio ainda agora no cérebro:

jarro de vidro cheio de leite, o sal. Estes

elementos arcaicos – e as mulheres

sombrias

cantando. Sou um lugar que transborda.

Espancaram a luz atrás das costas: de onde eu vinha,

criança branca do mundo. Defronte os fogos

lavravam-me a testa.

Podia dançar sobre as áscuas. Podia ser tão silvestre

entre as folhagens do ouro, ter cornos, negra

máscara aterradora, silvar

como uma cobra.

Eu entrava na morte, era o filho da estrela

bárbara – erguia-a do meio dos diamantes.

De equinócio a solstício abraçava-me uma onda

quando subia, quando

se despenhava eu dormia dentro como um olho de água.

Depois o rosto obscuro.

Depois a seda fiada atrás do rosto.

Não espero nada.

Espero o dom apenas de uma imagem.

 

HERBERTO HELDER (1930)

Poesia Toda

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

POEMA DE AMOR



Teu rosto, no meu rosto, descansado,

Meu corpo, no teu corpo, adormecido,

Bater de asas, tão longe, noutro tempo,

Sem relógio nem espaço proibido.

 

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,

Nos sorriem e nos dizem: Sossegai!

Românticos amantes, viajantes eternos,

Olham por nós na hora que se esvai!

 

Que música de prados e de fontes!

Que riso de águas vem para nos levar?

Meu rosto, no teu rosto de horizontes,

Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

 

NATÉRCIA FREIRE (1919)

Antologia Poética

 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

POEMA (Astecas)



Se me ponho a cantar,

como vermelha trepadeira se entrelaça o meu canto:

flor que cheira a milho torrado, onde se ergue a Árvore:

perfume de flor de cacau: dança junto ao tambor,

dança libertando o teu perfume.

Ergue-se além o sol:

num vaso de esmeralda coberto de quetzal,

cinge-o um colar de turquesas,

e as flores caem entre todas as cores.

 

Poemas Ameríndios

(poemas mudados para português por Herberto Helder)

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

FRÉSIAS



Frésias são flores com cheiro a chá

e ela, aos trinta e sete anos, preferia-as

às flores que se vendem por aí

admitia a beleza mas não o esplendor

porque são tristes as repetições

num instante se tornam saberes

e ela, aos trinta e sete anos,

prezava apenas os segredos que mesmo ditos

permanecem como segredos

 

(em certas épocas, por alguma porta esquecida

escapava-se, sonâmbula, para o pátio

que dá acesso à mata

e, por vezes, iam buscá-la

gritando o seu nome ou com a ajuda dos cães

já muito longe de casa

 

tinha por hábito acender fogueiras

de que, depois, se esquecia

e por isso também os aldeões

a temiam)

 

nunca compreendeu a natureza da vida doméstica

imensa e aflita criança

incapaz de certezas

 

o que de mais belo soube

sempre o disse, de repente,

a alguém que não conhecia

 

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (1965)

Baldios