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Faixa Sonora

terça-feira, 28 de outubro de 2014

ALGURES




Algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de

qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:

no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,

ou que eu não posso tocar de tão próximas que estão

 

o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me

embora eu me tenha cerrado como dedos,

tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera

(tocando hábil, misteriosamente)a primeira rosa

 

mas se teu desejo for encerrar-me, eu e minha vida

fecharemos em beleza, de repente,

como quando o coração desta flor imagina

a neve em tudo cuidadosa descendo;

 

nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala

o poder da tua extrema fragilidade: cuja textura

me submete com a cor dos seus domínios,

representando a morte e para sempre em cada alento

 

(eu não sei o que é que há em ti que fecha e abre;

apenas alguma coisa em mim entende

a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem tão finas mãos

 

E.E. CUMMINGS (1894-1962)

xix poemas

(tradução de Jorge Fazenda Lourenço)

 

sábado, 25 de outubro de 2014

ALÉM DE MIM


Quando o sol é um sorriso desfazendo
A escuridão soturna,
Nos meus olhos, também amanhecendo,
É beijo aceso a lágrima nocturna…
E quando a noite, espectro de outro mundo,
Por sobre a terra desce,
Todo o meu ser – tão pálido! – arrefece
E se torna sem margens e sem fundo. . .
Assim a minha vida é o fim das Cousas,
Seu estranho e fantástico destino!
As serras fragarosas
E o sol, astro divino,
Perdem-se no meu corpo em tempestade…
Meu corpo… ignoto mar;
Enlouquecida estátua de saudade,
A sonhar, entre nuvens, e a falar…
Que existe além de mim?
Silêncio, fria treva, solidão;
Um vago Azul sem fim,
A sombra da futura Criação…


TEIXEIRA DE PASCOAES (1877-1952)
Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

AGORA PODEIS TRATAR-ME COMO QUISERDES...



Agora podeis tratar-me

como quiserdes:

não sou feliz nem sou triste,

humilde nem orgulhosa

- não sou terrestre.

 

Agora sei que este corpo,

Insuficiente, em que assiste

Remota fala,

Mui docemente se perde

Nos ares, como o segredo

Que a vida exala.

 

E seu destino é ir mais longe,

Tão longe, enfim, como a exacta

Alma, por onde

Se pode ser livre e isento,

Sem actos além do sonho,

Dono do nada,

 

Mas sem desejo e sem medo,

E entre os acontecimentos

Tão sossegado!

Agora podeis mirar-me

Enquanto eu próprio me aguardo,

Pois volto e chego,

 

Por muito que surpreendido

Com meus encontros na terra

Seja o Aeronauta

 

Cecília Meireles

 

In “O Aeronauta”