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Faixa Sonora

terça-feira, 25 de novembro de 2014

APARIÇÃO



A mulher que por mim passou na rua, há pouco,

foi uma coisa diáfana, gentil,

cedo, a pairar

na sombra dum jardim

com flores, em baixo, ajoelhadas,

ao senti-la na altura,

e mandando-lhe o aroma em lágrimas, desfeito,

para mantê-la em uma nuvem branca…

 

Mulher, coisa diáfana, vaga e bela, sem desenho,

logo fluido animando o colo duma nuvem,

nuvem, num ápice, trucidada pelo vento!

 

EDMUNDO BETTENCOURT (1899-1973)

 

Poemas de Edmundo Bettencourt

 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

AO LONGE OS BARCOS DE FLORES



Só, incessante, um som de flauta chora,

Viúva, grácil, na escuridão tranquila,

- Perdida voz que de entre as mais se exila,

- Festões de som dissimulando a hora.

 

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila

E os lábios, branca, do carmim desflora…

Só, incessante, um som de flauta chora,

Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

 

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,

Cauta, detém. Só modulada trila

A flauta débil… Quem há-de remi-la?

Quem sabe a dor que sem razão deplora?

 

Só, incessante, um som de flauta chora…

 

CAMILO PESSANHA (1867-1926)

Edoi Lelia Doura

(antologia organizada por Herberto Helder)

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

AMOR INCONDICIONAL




Amar ao próximo ,

Seus defeitos

Além de suas virtudes

Enxergar nele, o reflexo do espelho

Ao mirar-nos.

 

 Quem é ele ?

É todo aquele ao nosso redor

E por vezes diz que nos ama,

Até que tenhamos uma falha

Igual à sua.

 

Amar incondicionalmente

Tarefa difícil, exercício diário

Necessário.

Incondicionalmente amar

Faz-nos seres especiais

Libertos das garras dos preconceitos,

Preceitos necessários à evolução

Quem é o próximo ?

È aquele a nos dizer que precisa ser amado

Compreendido,  acima de tudo.

 

Amar é respeitar, cuidar

Colocar-se no lugar.

Fazendo isto, 

São estes os primeiros passos

Indulgentes

Connosco e nosso próximo

Conseguiremos assim dizer:

Amo ao próximo como a mim mesmo.

 

Fernanda Pietra

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

AMOR



Vibrátil. fina, perfumada e clara,

Ondula a aragem que o amor provoca.

Longe, respira a vida. Aqui, o sonho.

Tudo é infância de águas e colinas

Na manhã dos teus olhos.

E voos, de mãos dadas.

E cantos, cantos de infinito amor,

Nos galhos, nas correntes e nas sombras veladas.

 

Envolve-se de nuvem nosso abraço.

Vibrátil, fina, perfumada e clara,

Ondula a aragem. Fadas e duendes

Agitam instrumentos na folhagem…

 

Vibrátil, fina, imperceptível, fluida,

Orquestra ao longe, no fundo dos sentidos:

Dedos de flores ondeiam sobre a pele

De céus indefinidos…

 

Cantam mistérios bocas fascinadas.

Abrem corolas, sobre a luz que as toca.

Vibrátil, fina, perfumada e clara,

Ondula a aragem que o amor provoca.

 

NATÉRCIA FREIRE (1919)

Antologia Poética

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

AMIGO



Mal nos conhecemos 
Inauguramos a palavra amigo! 
Amigo é um sorriso 
De boca em boca,
Um olhar bem limpo 
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão! 
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?) 
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido, 
Não o erro perseguido, explorado. 
É a verdade partilhada, praticada. 
Amigo é a solidão derrotada! 
Amigo é uma grande tarefa, 
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

 

(Alexandre O’Neill – 1924 – 1986)