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Faixa Sonora

domingo, 28 de julho de 2013

A TARDE NO MAR


A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar…

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes…


(Florbela Espanca)


segunda-feira, 22 de julho de 2013

CANÇÃO


Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!

Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!

Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!

FERNANDO PESSOA (1888-1935)
Ficções do Interlúdio


sábado, 20 de julho de 2013

INCONSTÂNCIA


 Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…


(Florbela Espanca)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

RETRATO


Neste retrato
estás a olhar para diante, para sempre, para muito além,
sabe-se lá por que saudade, por que mágoa, mas além,
onde talvez houvesse um cofre aberto para os sonhos que devastei.
pérolas queimadas,
pérolas negras do medo e da paixão,
metais preciosos roubados às forjas de Deus,
tudo o que neste retrato desenha,
com incandescente ferro e pincéis,
ardor, fúria, tenacidade,
mas nunca a renúncia,
nunca as marcas do luto e da febre sobre a lua amarela.
 
Neste retrato eras tu – e não poderia ser eu? ­
com o tempo por cima, a passar impiedosamente,
o tempo do declínio, o tempo do pó,
tudo o que hoje se comprime nesta moldura de prata,
ao centro da mesa, tristemente.
 
JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA (1948)
Biografia