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Faixa Sonora

quinta-feira, 17 de março de 2011

TU MANDASTE-ME DIZER


Tu mandaste-me dizer
Que tornavas novamente
Quando viesse a tardinha;
E eu, para mais te prender,
- Nesse dia...

Pintei de negro os meus olhos
E de roxo a minha boca.
As rosas eram aos molhos
Para a noite rubra e louca!

Entornei sobre o meu corpo,
- Que fora delgado e belo!
O perfume mais estranho e mais subtil;
E um brocado roxo e verde
Envolveu a minha carne
Macerada e varonil.
Os meus ombros florentinos,
Cobertos de pedraria,
Eram chagas luminosas
Alumiando o meu corpo
Todo em febre e nostalgia.
Nas minhas mãos de cambraia,
As esmeraldas cintilavam;
E as pérolas nos meus braços,
Murmuravam...
Desmanchado, o meu cabelo,
Em ondas largas, caía,
Na minha fronte
Ligeiramente sombria.

Estava pálido e dir-se-ia
Que a palidez aumentava
A minha grande beleza!

Na minha boca ondulava
Um sorriso de tristeza.

A noite vinha tombando.

E, como tardasses,
Fiquei-me, sentado, olhando
O meu vulto reflectido
No espelho de cristal;

E afinal,
Nem frescura, nem beleza,
No meu rosto descobri!

- Ó morte, não me procures!
E tu, meu amor, não venhas!...
- Eu já morri. 


ANTÓNIO BOTTO
(Canções)

7 comentários:

  1. Descobri este seu espaço por acaso e gostei imenso... parabéns!
    Bjs
    Chris

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  2. "Na minha boca ondulava
    Um sorriso de tristeza."

    Lindas palavras.

    bjs

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  3. Passando para te deixar um beijo de boa noite.

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  4. Belissima escolha...

    lindo, porém muito triste.


    Beijos

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  5. Grata por partilhares...Um texto belíssimo; Um blog de eleição...
    Obrigada por estares aí!

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  6. Venho apenas agradecer a visita e dizer que se não tivesse de ir "a correr" para o trabalho...agora ficava aqui um pedaço de tempo....

    Um Bom dia!

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