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Faixa Sonora

terça-feira, 28 de outubro de 2014

ALGURES




Algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de

qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:

no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,

ou que eu não posso tocar de tão próximas que estão

 

o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me

embora eu me tenha cerrado como dedos,

tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera

(tocando hábil, misteriosamente)a primeira rosa

 

mas se teu desejo for encerrar-me, eu e minha vida

fecharemos em beleza, de repente,

como quando o coração desta flor imagina

a neve em tudo cuidadosa descendo;

 

nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala

o poder da tua extrema fragilidade: cuja textura

me submete com a cor dos seus domínios,

representando a morte e para sempre em cada alento

 

(eu não sei o que é que há em ti que fecha e abre;

apenas alguma coisa em mim entende

a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem tão finas mãos

 

E.E. CUMMINGS (1894-1962)

xix poemas

(tradução de Jorge Fazenda Lourenço)

 

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